Andréia Debon
Colunista

Sou jornalista e há 20 anos escrevo sobre vinhos. Nos últimos anos me dediquei a estudar sobre o Enoturismo, o turismo entorno da bebida. Nesse tempo tive a oportunidade de viajar para conhecer projetos em alguns países. Morei na Itália, onde tive a oportunidade de conhecer todas as principais regiões produtoras, além de fazer uma especialização em hospitalidade, vinhos e território. Recentemente também participei das duas principais feiras do Enoturismo da Europa, as quais aconteceram na Espanha e Portugal e, recentemente, também voltei para a Vinitaly, que é a principal feira de vinhos da Itália e que, desde 2025, passou a destinar um espaço só para promoção do segmento daquele País. Dito isso, vamos ao tema deste primeiro texto.

Nunca se falou tanto de Enoturismo. O setor cresce justamente em um cenário de retração no consumo global de vinhos – exceto no Brasil, um dos poucos países do mundo que registra números positivos. Ou seja: enquanto em diversos mercados o consumo per capita de vinhos diminui, aumenta o interesse por experiências ligadas ao universo vitivinícola.
Porém, vale ressaltar que o Enoturismo atravessa um momento de transformação. Mais do que visitas e degustações tradicionais, o visitante busca conexão com o território, contato com produtores, autenticidade e experiências memoráveis. Para as vinícolas isso não tem a ver somente com a excelência do vinho, mas com a capacidade de perceber que o vinho precisa ser vivido — e não apenas consumido.
Talvez isso possa assustar num primeiro momento, mas eu digo que é muito mais simples do que se imagina: os visitantes valorizam o que é verdadeiro, local, e não artificial. Querem comer o prato que os moradores comem, querem saber a história real da família e do território, sem firulas e grandes pretensões. O conceito de genuíno é o que mais importa.

Outro valor muito importante relacionado ao Enoturismo é a sustentabilidade. O turista atual observa práticas ambientais responsáveis, respeito à paisagem, produção local e preservação da cultura regional. E isso coloca as vinícolas diante de um novo desafio: além de bons vinhos, será cada vez mais necessário oferecer experiências coerentes com valores contemporâneos. Isto é, o turismo do vinho, quando bem estruturado, movimenta a economia de uma cidade. E isso não beneficia apenas as vinícolas, mas hotéis, restaurantes, guias, artesanato, transporte e comércio local. Regiões produtoras passam a ser vistas como destinos completos, capazes de gerar renda, empregos e valorização cultural. Na prática, o visitante que chega para uma degustação frequentemente prolonga a estadia, consome produtos locais e retorna ao destino em outras épocas do ano.

Um exemplo que podemos citar é a Itália. O País vem transformando sua gastronomia e sua cultura do vinho em um dos motores mais consistentes do turismo nacional. Dados oficiais apresentados pela pesquisadora e professora italiana Roberta Garibaldi mostram que o segmento segue crescendo acima da média do setor turístico tradicional e se consolida como ferramenta estratégica para geração de renda, valorização territorial e combate à concentração excessiva de visitantes nos destinos mais saturados.
Segundo o Relatório Italiano de Turismo Enogastronômico 2024, coordenado por Garibaldi, 70% dos italianos afirmam ter realizado ao menos uma viagem nos últimos três anos motivada principalmente por comida, vinho, azeite ou outros produtos típicos locais. O índice representa crescimento de 12% em relação a 2023 e avanço de 49% sobre 2016, evidenciando a rápida expansão do setor
O Enoturismo no Brasil cresce a passos largos e, a partir das minhas vivências, posso garantir que o setor no País – e aqui falando especificamente das vinícolas que fazem parte dos Altos Montes, nada tem a perder para países que trazem consigo cultura e tradições milenares no que diz respeito ao vinho e a gastronomia. Por isso, este movimento global em torno do Enoturismo representa uma oportunidade estratégica, já que reunimos atributos valorizados pelo novo consumidor: hospitalidade, diversidade cultural, gastronomia regional, belas paisagens e melhora na qualidade dos vinhos. Temos vinícolas incríveis e experiências criativas. O desafio está em transformar essas vantagens em experiências integradas, profissionais e condizentes economicamente. Assim, o turista, ou até mesmo os moradores, podem voltar outras vezes e serem os melhores comunicadores que esse roteiro possa ter.
Andréia Debon
*Jornalista especialista em Vinhos e Enoturismo, Sommelière e Professora UCS/ONAV, Master in Food & Wine Management