Marcelo Vargas
Colunista
Poucas regiões brasileiras traduzem com tanta clareza a ideia de território quanto Alto Montes, na Serra Gaúcha. O vinho não se limita ao conteúdo da garrafa. Ele se projeta sobre a paisagem, a cultura gastronômica, o ritmo das propriedades familiares e a memória da imigração italiana. Em Flores da Cunha e Nova Pádua, a mesa não é apenas um lugar de consumo: é uma extensão da vinha, da cantina e da própria história regional.
Talvez por isso a gastronomia local exerça tamanho fascínio sobre quem enxerga o vinho para além da degustação técnica. Comer nessa parte da Serra é compreender, de forma concreta, como um território constrói coerência entre solo, clima, cultivo, tradição e hospitalidade. Os pratos típicos não surgem como coadjuvantes do enoturismo. Ao contrário: eles são parte essencial da leitura sensorial e cultural da região.
A culinária de matriz ítalo-serrana preserva aquilo que há de mais valioso na cozinha de origem camponesa: profundidade sem afetação, fartura sem excesso gratuito, técnica transmitida pela repetição e um sentido muito claro de coletividade. Há caldos longos, massas recheadas, assados lentos, polenta, folhas amargas, carnes de criação, queijos coloniais, embutidos artesanais, sobremesas simples e, naturalmente, vinhos que dialogam com essa gramática de forma quase orgânica.

Quando se fala em harmonização, muitas vezes o olhar recai apenas sobre compatibilidades clássicas de estrutura, acidez, tanino e textura. Em Flores da Cunha e Nova Pádua, no entanto, a análise pode ir além. A cozinha típica forma com o vinho uma relação de origem compartilhada. Ambos nasceram do mesmo ambiente agrícola, da mesma cultura familiar e da mesma lógica de aproveitamento da terra.

Essa mesa colonial italiana é feita de continuidade. O pão caseiro, a sopa, a massa, a carne, a polenta, o queijo, as conservas, o vinho e a sobremesa compõem uma sequência que não precisa de sofisticação aparente para ser sofisticada em identidade. É justamente essa verdade culinária que torna a harmonização tão rica. Os vinhos encontram nos pratos locais não um desafio artificial, mas um campo natural de expressão.

Se fosse necessário escolher um emblema culinário dos Alto Montes, o menarosto estaria entre os candidatos mais fortes. Mais do que um prato, ele representa um ritual. As carnes são assadas lentamente em rolete, em movimento contínuo, num preparo que privilegia cozimento uniforme, suculência e desenvolvimento aromático. Não se trata de um assado agressivo, marcado apenas por tostado e defumado; trata-se de uma cocção paciente, que equilibra calor, textura e concentração de sabor.
Galeto, carne suína, codorna e coelho costumam compor esse repertório, às vezes no mesmo serviço, formando um mosaico expressivo da cozinha festiva local. Para o vinho, isso abre possibilidades especialmente interessantes. O espumante brut elaborado na região é um parceiro notável para o galeto: sua acidez, aliada à cremosidade das borbulhas, refresca o paladar e valoriza a crocância da pele sem interferir na delicadeza da carne.
Nas versões com maior presença de carne suína, entram em cena tintos de corpo médio e perfil gastronômico. O Merlot, uma das castas que melhor conversa com a cozinha serrana, costuma entregar grande precisão nesse contexto. Sua fruta madura, seus taninos mais dóceis e seu centro de boca macio acompanham a gordura e o tostado com naturalidade. Em preparos com codorna ou coelho, a régua pede mais sutileza: um Pinot Noir regional ou mesmo um Chardonnay de boa textura podem oferecer harmonizações mais refinadas do que tintos excessivamente concentrados.
Entre os grandes clássicos da Serra, a sopa de agnolini ocupa um lugar de absoluto prestígio afetivo. Trata-se de um prato que fala menos em impacto e mais em permanência. O caldo, resultado de cocções longas, entrega profundidade e calor. A massa, delicada e precisa, acrescenta textura sem romper a fluidez do conjunto. É uma culinária de aconchego, mas também de grande presença sensorial.

Do ponto de vista da harmonização, a sopa de agnolini ensina uma lição valiosa: intensidade não é sinônimo de peso. Embora tenha base cárnea, o prato costuma se beneficiar de vinhos que preservem sua delicadeza. Um Chardonnay fresco, sem madeira invasiva, é capaz de acompanhar o caldo com elegância e prolongar sua dimensão reconfortante. Os espumantes nature ou extra-brut também funcionam de modo admirável, sobretudo quando a refeição pede leveza e progressão.
Para quem prefere tintos, o melhor caminho está nos exemplares de extração moderada. tintos leves e jovens tendem a se mostrar mais adequados do que rótulos de taninos firmes ou excesso de carvalho. É uma harmonização que depende de nuance, não de força.
Poucas cozinhas regionais brasileiras trabalham tão bem a textura quanto a tradição ítalo-serrana. O tortéi e a polenta são prova disso. O primeiro, geralmente recheado com abóbora, oferece doçura sutil, maciez e grande afinidade com molhos amanteigados, queijos e preparos de baixa agressividade. A segunda, presença constante à mesa, surge cremosa, frita, mole ou grelhada, sempre com grande capacidade de absorver e sustentar sabores.

No caso do tortéi, os melhores pares costumam vir de vinhos que respeitam a delicadeza do prato. Um branco de bom volume de boca, com acidez equilibrada, acompanha muito bem versões mais cremosas. Quando há molho vermelho ou maior presença de queijo curado, um Cabernet Franc se mostra um parceiro especialmente seguro, desde que mantenha fruta e maciez.
A polenta, por sua vez, muda de comportamento conforme a textura. Frita, ela pede frescor e corte, encontrando no espumante brut um companheiro quase inevitável. Em versões mais macias, servidas com ragus, carnes ou queijos, a harmonização pode migrar para tintos de corpo médio ou brancos mais estruturados, sempre conforme a intensidade do acompanhamento.
Uma das grandes virtudes da culinária de Alto Montes está na capacidade de transformar preparos simples em experiências de enorme identidade. O queijo frito é o exemplo perfeito. Dourado por fora, untuoso por dentro, pede um contraste técnico muito claro. A acidez é indispensável, e por isso o branco com leve toques de madeira se destaca como escolha de excelência. Se o queijo tiver mais acidez, pense no espumante como alternativa.
O pien, prato delicado e de textura macia, exige do vinho o mesmo respeito à medida. Brancos de médio corpo e rosés gastronômicos (ambos com boa intensidade de aromas e sabores) costumam ser mais felizes aqui do que vinhos de estrutura imponente. Trata-se de um caso clássico em que a elegância da harmonização nasce da contenção.

Já a carne lessa, de sabor profundo e textura tenra, pede uma leitura mais cuidadosa. A ausência de tostado e caramelização altera completamente a lógica de combinação. Sem a crosta do assado, a carne cozida valoriza vinhos de taninos moderados, boa acidez e centro de boca generoso. Um Merlot ou Marselan jovens, encontram seu lugar com facilidade. Em leituras mais delicadas, tintos leves e bem frutados podem ser ainda mais interessantes.
O radicci, frequentemente presente nas mesas locais, é um marcador identitário importante. Seu amargor vegetal, às vezes reforçado por bacon ou cocção, introduz contraste e profundidade a uma culinária marcada por massas, carnes e elementos untuosos. É um ingrediente que traz rusticidade, mas também refinamento sensorial.

Na harmonização, o amargor pede cautela. Vinhos com tanino podem se tornar mais austeros ao lado das folhas. Quando o radicci vem acompanhado de gordura e tostado, como no caso do bacon, tintos macios e frutados podem funcionar. Também vale testar um Sauvignon Blanc, com alta acidez e bastante frutado: ele absorve o amargor, acomoda a gordura e mantém fluidez.
Em qualquer leitura séria da gastronomia de Flores da Cunha e Nova Pádua, é impossível ignorar os embutidos, queijos coloniais e pães artesanais. Eles representam, em muitos casos, o primeiro contato do visitante com o território. Não se trata apenas de uma abertura de refeição, mas de uma síntese do espírito local: hospitalidade, produção artesanal e orgulho pelo que é feito em casa.

Poucos estilos se mostram tão aptos a atravessar esse repertório quanto o espumante brut. Sua acidez, sua capacidade de preparar o paladar e sua versatilidade diante de sal, gordura e textura fazem dele um dos vinhos mais inteligentes à mesa. Entre os tintos, Pinot Noir pode ser um coringa regional, enquanto o Merlot sem passagem por madeira pode ganhar espaço diante de curas mais intensas e queijos de sabor mais firme.
Essa vocação gastronômica dos vinhos da região talvez seja um de seus maiores trunfos. Em vez de apostar apenas em potência, muitos rótulos revelam equilíbrio, frescor e grande adaptabilidade à mesa — algo fundamental quando se pensa em culinária colonial, com múltiplos pratos e abundância de elementos simultâneos.
Nos pratos de maior concentração, como ovelha, churrasco mais marcado e assados longos, entram em cena os tintos de maior estrutura. É nesse momento que Cabernet Sauvignon, Tannat e Nebbiolo locais revelam sua melhor face: fruta escura, acidez serrana, taninos marcados e capacidade de enfrentar proteínas mais intensas sem perder dinamismo.

Ainda assim, a cozinha regional ensina que estrutura não deve ser confundida com excesso. Mesmo diante de pratos robustos, os melhores resultados costumam vir de vinhos que preservam equilíbrio e precisão. Em termos enogastronômicos, essa talvez seja uma das marcas mais elegantes de Alto Montes: a potência aparece, mas raramente à custa da acidez.
As sobremesas da região preservam a mesma lógica de afeto e tradição que organiza o restante da refeição. Sagu de vinho, torta de bolacha, grostoli e biscoitos caseiros encerram a experiência sem ostentação, mas com enorme força cultural. O sagu de vinho, em particular, simboliza de maneira quase literal o encontro entre cozinha e vitivinicultura.

Nesse momento, o Moscatel espumante encontra terreno fértil. Sua doçura equilibrada, aliada à vivacidade e ao perfil aromático, acompanha bem sobremesas leves e festivas. Mais do que buscar complexidade excessiva, a melhor harmonização aqui é aquela que prolonga a sensação de prazer e pertencimento.
Ao observar a culinária típica de Flores da Cunha e Nova Pádua, fica evidente que a grande riqueza da região está na coerência. O vinho não foi enxertado sobre a gastronomia como um elemento externo de sofisticação. Ele já fazia parte do sistema cultural que moldou a mesa. Por isso as harmonizações soam tão naturais.

O menarosto expressa o rito da celebração. A sopa de agnolini traduz acolhimento e memória. O tortéi, a polenta, o queijo frito, o pien, a carne lessa e o radicci compõem uma cozinha de textura, afeto e identidade. Os embutidos, os pães e os queijos reforçam o elo entre artesanalidade e hospitalidade. E os vinhos (espumantes, brancos, rosés e tintos) encontram nesse repertório um ambiente ideal para mostrar sua vocação de mesa.
Nos Alto Montes, a experiência enogastronômica mais interessante não está apenas na taça nem apenas no prato. Está na conversa entre os dois. E é justamente nessa conversa que a Serra Gaúcha revela uma de suas expressões mais autênticas e mais sedutoras.
Autor: Marcelo Vargas
É professor e pesquisador nas áreas de vinhos e gastronomia. Eleito melhor sommelier consultor do Brasil em 2023, traz a experiência de mais de 20 anos em multinacionais nas áreas de alimentos e bebidas. É coordenador do MBA em Negócios e Marketing do Vinho da ESPM, pesquisador do Centro Italiano di Analisi Sensoriale e diretor de Pesquisas e Formações da Sensory Business. Atua como professor de pós-graduação em vinhos na Università di Camerino (Itália), na PUCRS e na ESPM.